terça-feira, 8 de abril de 2014

Composição II | Guston em contexto 2: 1945-1966 | 2015-04-29

2015-04-29




1 – Contexto

 

Ben Shahn, We Fight for a Free World!, c. 1942
Pollock, Mural, 1943

 

EUA, décadas de 1940-50

Afirmação de um novo paradigma:
– Emergência nos EUA de uma vanguarda artística autónoma, internacionalista.
– Completa liberdade para as artes (separação entre arte e política); distanciamento da arte de intervenção da década de 1930; “alienação” do artista é considerada condição necessária à sua libertação.
– Das preocupações sociais para o universo individual; da pintura mural para a pintura de cavalete; elite como alvo.
– Abstração enquanto tendência “historicamente (?) necessária”

 

1929 – Crash de Bolsa de Nova Iorque; crise económica nos EUA e na Europa
1933 – Hitler sobe ao poder; programa de recuperação de Roosevelt (New Deal)
1934 – Realismo Socialista torna-se em programa oficial na União Soviética (discurso de Zhdanov, representante de Estaline no 1º Congresso dos Escritores Soviéticos).
1935 – Unidade da esquerda: “Frente Popular” contra o fascismo
1936 – Inicia-se a Guerra de Espanha; American Artist’s Congress
1936–38 – Julgamentos de Moscovo (contra Trotsky, etc.).
1938-40 – Fraturas no movimento unitário

 

1939-1945 – 2ª Guerra Mundial

Fim do isolacionismo dos EUA

Robert Capa (D-Day, June 6, 1944)

 

Obras de V. Mukhina e Pollock

1945 - Fim da 2ª Guerra Mundial
 – EUA tornam-se em grande potência mundial
 – 2 blocos político-militares antagónicos (liderados pelos EUA e pela União Soviética)
 – Arte torna-se símbolo da clivagem política
 – Nova Iorque irá “roubar [a Paris] a ideia de arte moderna”
Ver: Serge Guilbaut – How New York Stole the Idea of Modern Art. Chicago: The University of Chicago Press, 1983.

 

Aleksandr Gerasimov, Stalin at the 16th Congress of the Russian Communist Party
Rothko, Untitled, 1955, oil on canvas

 

França: importância do PCF no pós-guerra (adesão de Picasso, etc.); dicotomia figuração/abstração…
André Fougeron, National Defense, 1950, oil on canvas, 325 x 225 cm
Pierre Soulages (obra de 1948)

 

Abstração enquanto tendência “historicamente (?) necessária” .

Novo dinamismo da cena artística nova-iorquina. Emergência de um novo mercado. Apoios: MoMA/Alfred Barr; família Rockefeller; etc.

Most popular was the Eighth Street Club, or simply 'The Club,' which was established in the fall of 1949. It was social as much as intellectual. It hosted panel discussions and visiting speakers.

Expressionismo abstrato: ausência de princípios rígidos ou manifestos; liberdade de ação individual; diversidade

Hans Hofmann (1880-1966)
Arshile Gorky (1904-1948)

(Gesture)
Willem
de Kooning (1904-1997)
Jackson Pollock (1912-1956)
Philip Guston (1913-1980)
 

(Color Field)
Mark Rothko (1903-1970)
Clifford Still (1904-1980)
Barnett Newman (1905-1970)

 

Hans Hofmann teaching (1948)

“Para a valoração da pintura […], todas as considerações literárias ou jornalísticas deviam ser inteiramente abandonadas. Sobrecarregar a tela com propaganda ou história não torna a pintura numa obra de arte melhor. Na maioria dos casos essa sobrecarga diminui a sua qualidade [...].” Hans Hofmann, “On The Aims of Art”, 1932


Hans Hofmann, Idolatress I, 1944
“A pureza na arte consiste na aceitação, na deliberada aceitação, das limitações do médio de uma arte específica. […] É em virtude do seu médio que cada forma de arte se torna única e estritamente ela própria. […] As características puramente plásticas ou abstratas da obra são as únicas que contam. Enfatize-se o médio e as suas dificuldades, e imediatamente emergem os valores autênticos e puramente plásticos da obra de arte.”
Clement Greenberg, “Towards a Newer Laocoon”, 1940


Roberto Matta, Years of Fear, 1941-42, oil on canvas, 112 x 142 cm
Arshile Gorky, How My Mother's Embroidered Apron Unfolds in My Life, 1944, oil on canvas, 101 x 143 cm

 

Automatismo plástico – …
“Aquilo que em minha opinião aconteceu na pintura americana do pós-guerra teve as suas origens no automatismo, assimilado pela situação particular de Nova Iorque – isto é, o tom e as qualidades literárias do surrealismo foram abandonadas e o rabisco transformado em algo plástico, misterioso e sublime.”
Robert Motherwell, 1967.

 

Arshile Gorky, The Artist and His Mother, 1926-36
Arshile Gorky, Waterfall, 1943, oil on canvas, 153 x 113 cm

 

Gorky, The Liver is the Cock's Comb, 1944 – confluência de fatores:
– dissociação de forma e contorno (Picasso, Garrafa sobre uma mesa, 1912)
– figuras biomórficas, surrealizantes (Miró , Maternity, 1924)
– transparência da cor  e presença visual de camadas anteriores (Matisse, View de Notre Dame, 1914)
– abstração; cor saturada (Kandinsky, Improvisation 27, Garden of Love II, 1912)
– universo surreal, orgânico, próximo da ficção científica (Roberto Matta, Years of Fear, 1941-42)
– etc.

 

Pollock, influências: Thomas Hart Benton; Siqueiros/Orozco; Picasso…

Pollock, Gooing West, 1934-35, oil on canvas, 38 x 53 cm

Pollock, Naked Man with Knife, c.1938–40
Pollock, Beach Figures, 1944

Pollock, Mural, 1943, oil on canvas, 247 x 605 cm
Pollock, Autumn Rhythm (Number 30), 1950, 267 x 526 cm


Contaminações: Existencialismo (Kierkegaard… Sartre… reafirmação da importância da liberdade e individualidade humana; enfatização do sujeito humano, não meramente o sujeito pensante, mas as suas ações, sentimentos e vivência individual…)

Action Painting – Harold Rosenberg

“Today, painters do not have to go to a subject matter outside of themselves. [...] They work from within.” | “Painting is self-discovery. Every good artist paints what he is.” Pollock
“...large movable pictures which [...] function between the easel and the mural. I have set a precedent in this genre in a large painting for Miss Peggy Guggenheim [Mural, 1943]”. Pollock, 1947

 

Willem de Kooning, Seated Woman, c. 1940
Willem
de Kooning, Woman I, c. 1950-52

Willem de Kooning, Excavation, 1950

 

Mark Rothko, Entrance to Subway, 1938
Mark Rothko, Untitled, 1947

 

Clyfford Still, obras dos anos de 1930

Clyfford Still, Untitled, 1953
“My paintings have no titles because I do not wish them to be considered illustrations or pictorial puzzles”, Clifford Still

 

Newman, Barnett, Onement I, 1948, oil on canvas and on masking tape on canvas, 69,2 x 41,2 cm

Barnett Newman, Vir Heroicus Sublimis, 1950-51, oil on canvas, 242,2 x 541,7 cm

Barnett Newman, Here I, 1950, The Wild, 1950, Vir heroicus sublimis, 1950-51

Newman proclaimed Onement, I to be his artistic breakthrough […]. This is the first time the artist used a vertical band to define the spatial structure of his work. This band, later dubbed a "zip," became Newman's signature mark. The artist applied the light cadmium red zip atop a strip of masking tape with a palette knife. http://www.moma.org/collection/object.php?object_id=79601


Scale: ”There is a tendency to look at large pictures from a distance. The large pictures in this exhibition are intended to be seen from a short distance”. Barnett Newman, 1951

 

2 – Guston

 

1930 – 1934: Guston em Los Angeles (e México) – pintura de intervenção
1935 – 1941: Guston em Nova Iorque – pintura mural, etc.
1941 – 1945: Guston em Iowa City – regresso aos “bancos da escola”.
1945 – 1950: Transição – crise

Pollock, The She Wolf , 1943                                                                    

Guston, Sanctuary, 1944
Guston no estúdio de St. Louis, 1946

1945 – 1946

Guston expõe individualmente na Midtown Galleries, Nova Iorque; desfasamento em relação ao trabalho de Pollock, etc. | Guston muda-se para St. Louis; reformulação de ideias

Auschwitz                                                        

Campo de concentração – 1945
Guston – Alegorizar o Holocausto?

Picasso, Le Charnier, 1944-45, óleo sobre tela, 200 x 250 cm

“Muita da nossa conversa versava sobre o holocausto e de como o alegorizar”; estava em busca de um equivalente plástico em que “as formas comprimidas e os próprios espaços” pudessem exprimir essa dimensão alegórica.” Guston

 

Guston, The Porch, 1946-47, oil on canvas, 142.6 x 86.3 cm

Max Beckmann, Departure, 1932-33, óleo sobre tela, painéis laterais: 215 x 99 cm; painel central: 215  x 115 cm.

Guston, Porch No.2 (Alpendre nº 2), 1947, óleo sobre tela, 158.7 x 109.5 cm.

Guston, Sentimental Moment, 1944      

Guston, The Porch, 1946-47          

Pollock, Cathedral, 1947
 
1947
Consolidação do Expressionismo Abstrato.
Guston vence Carnegie Award com Sentimental Moment; Life dá-lhe grande destaque; recebe bolsa Guggenheim; muda-se para Woodstock e deixa de ensinar; acentua-se a crise.

 

Guston, The Tormentors, 1947-48, óleo sobre tela, 103.8 x 153.7 cm.
Guston na American Academy, Roma, 1949.

Crise
1947 – Lenta aproximação à pintura abstrata
1948-1949 – Viagem à Europa

Guston, Sem Título, 1950, tinta sobre papel, 47.3 x 59.7 cm.

1950 – 1951
Consolidação do Expressionismo Abstrato.
Guston muda-se para Nova Iorque: breakthrough – vertente gestual do Exp. Abst.
Amputação da vertente figurativa / sobrevivência

Guston, White Painting I, 1951, óleo sobre tela, 147 x 157.2 cm.

“O desejo de expressão directa tornou-se por fim tão forte, que mesmo o intervalo para chegar à paleta ao meu lado se tornou demasiado longo; Por isso um dia estiquei uma grande tela e pus a paleta à minha frente. Então, forcei‑me a pintar toda a obra sem recuar para olhar para ela. Lembro-me de que pintei isto numa hora.” Guston, 1962.

Guston, Attar, 1953, óleo sobre tela, 123.2 x 116.9 cm.

Acção direta sobre a tela / obra como reflexo da identidade do artista / eliminar a distância no ato de criar / suspender o racionalismo da composição ? / esquecer temporariamente a história de arte?

Guston, Zone, 1953-54, óleo sobre tela, 116.8 x 121.9 cm.

“Em vez de recuar, puxar de um cigarro e pensar, não interrompia o trabalho, num teste a mim próprio, para ver se o meu sentido de estrutura era inerente. Ficava de pé, junto à superfície do quadro e trabalhava continuamente durante três ou quatro horas. Comecei a ver que quando fazia isso não perdia de modo nenhum a estrutura.” Guston, 1966.

Guston, Zone , 1953-54, óleo s tela, 116.8 x 121.9 cm
Monet, Les Quatre Arbres, 1891, óleo sobre tela.                                            
Mondrian, Church Facade, 1914, carvão sobre painel, 71.8 x 48.6 cm.

Impressionismo Abstracto?
Mondrian, trabalhos mais–menos (plus - minus)?

Guston, For M, 1955, óleo sobre tela, 194 x 183.5 cm
de Kooning, Excavation, 1950, oil on canvas.
Clifford Still, 1960-F, 1960, óleo sobre tela, 284 x 369 cm.

Baselitz no estúdio de Dernburg, 1990
Guston, Fable I, 1956-1957, óleo sobre tela, 165.1 x 190.5 cm

1958
Apogeu do Expressionismo Abstracto
Exposição Itinerante percorre capitais europeias

Processo de trabalho: sucessão de camadas; wet on wet…

Instabilidade emocional

“A coisa repetia-se vezes sem conta. Encontrávamos o Philip durante semanas e então uma noite ele aparecia completamente destroçado, e dizia: «acabei de raspar para o chão meses de trabalho. Não sou pintor. Não há nada a fazer». E todos ficávamos em baixo. Todos! Ele tinha essa capacidade de projectar o seu estado de espírito em tudo à sua volta. Um desespero total! Mas era infalível; na semana seguinte chegava, a pairar nas nuvens, sem sequer tocar o chão e dizia, «Acabei agora mesmo a primeira pintura da minha vida». E arrastava-nos a todos como o flautista mágico e partíamos, noite fora, para passar umas belas horas, sem nunca parar […]. A noite tornava-se numa enorme celebração.” Mercedes Matter, citada em: Musa Mayer, Night Studio: A Memoir of Philip Guston. Pág. 66.

Guston, Attar, 1953, óleo sobre tela, 123.2 x 116.9 cm
Guston, Fable I, 1956-1957, óleo sobre tela, 165.1 x 190.5 cm

Progressiva afirmação da forma – maior diferenciação figura/fundo – primeiras etapas de um regresso à figuração?

1958… 1960… – Guston de passo trocado com Greenberg:

Guston reconhece o enorme prejuízo resultante de uma “perda de fé no símbolo e na imagem”.
Guston, 1958

Para Greenberg, a pintura devia expurgar tudo o que fosse estranho à sua essência (nomeadamente os vestígios da figuração), “tornando-se «pura», encontrando na sua «pureza» o garante dos seus padrões de qualidade bem como de independência”.
Greenberg, “Modernist Painting” (1960). Em: Harrison, C. and Wood, P. (Editores). Art in Theory... Pág. 755.

“Há algo de ridículo e mesquinho no mito que herdámos da arte abstrata: de que a pintura é autónoma, pura, e existe para si própria […] Mas a pintura é «impura». É o ajustamento de «impurezas» que força a sua continuidade.” Guston, 1960.

Rosenberg: Arte como manifestação da identidade do artista (existencialismo) | Flexibilidade | Discurso metafórico | Colaboração direta com os artistas.
Greenberg: Auto-crítica da pintura; purificação; critérios formais | Rigidez | Discurso didático | Distanciação; manipulação da cena artística.

Rosenberg / Guston  
Greenberg / Pollock (Pollock morre em 1956)

1962

Guston: Retrospectiva no Guggenheim, Nova Iorque.

Declínio da popularidade do Expressionismo Abstracto.

Greenberg publica After Abstract Expressionism.

Emergência da arte Pop.

Guston e outros expressionistas abstratos abandonam a Sidney Janis Gallery.

de Kooning, Woman I, 1950-1952, oil on canvas       
Guston.
Fable I, 1956-1957, óleo sobre tela, 165.1 x 190.5 cm
“Homeless representation, […] uma pictorialidade plástica e descritiva que se aplica a fins abstractos, mas que continua a sugerir objectivos figurativos.” Clement Greenberg. “After Abstract Expressionism” (1962).

Post Painterly Abstraction  (Greenberg)
Kenneth Noland, Bloom, 1960, acrilico sobre tela, 170 x 171 cm 
Morris Louis, Alpha-Pi, 1961, acrílico sobre tela, 260 x 450 cm

Pop
Warhol, Latas de sopa Campbell, 1962, óleo sobre tela, 50.5 x 81 cm

“Demorei cerca de um ano até voltar a pintar e parar de cismar sobre o trabalho. Mas foi extremamente valioso para mim. Acho que me tornei mais implacável comigo próprio no trabalho que se seguiu.” Guston, 1966.

Guston, The Light, 1964, óleo sobre tela, 175.3 x 198.1 cm.

“No início dos anos sessenta as cores desapareceram. Queria trabalhar com os meios mais simples possíveis. Nem sequer esticava as telas, apenas as fixava à parede. Por último, já só estava a usar branco e preto. A pintura tinha-se tornado num problema crucial de localização. Não esticava essas telas. Montei uma espécie de toalheiros para as pendurar. Ao fim de quatro anos o estúdio mais parecia o departamento de tapetes de um grande armazém.” Guston, 1966.

Piero della Francesca, A Flagelação, c. 1450.

“A pintura tinha-se tornado num problema crucial de localização.” Guston, 1966.

Guston, The Day, 1964, óleo sobre tela, 195.6 x 203.2 cm.

Guston. Air II, 1965, óleo sobre tela, 175.3 x 198.1 cm

“Há tantas coisas no mundo, nas cidades, tanta coisa para ver. Será que a arte precisa de representar esta variedade e contribuir para a sua proliferação? Pode a arte ser livre? As dificuldades começam quando compreendemos tudo aquilo que a alma impede a nossa mão de realizar.”
Guston, “Faith, Hope and Impossibility”, XXXI Art News Annual, October 1965.

 

Guston. Air II, 1965, óleo sobre tela, 175.3 x 198.1 cm
Morandi, Natureza morta, 1962, óleo sobre tela, 27 x 32.5 cm

“Estou quase a entrar numa espécie de figuração... Cabeças, formas de naturezas mortas, tão sólidas quanto me é possível, embora não reconhecíveis. Não sinto necessidade disso.” Guston, 1966.

Guston, The Day, 1964, óleo sobre tela, 195.6 x 203.2 cm
Kenneth Noland, Bloom, 1960, acrilico sobre tela, 170 x 171 cm
Frank Stella, Marquis de Portago, 1960, 2ª versão
Warhol, Latas de sopa Campbell, 1962, óleo sobre tela, 50.5 x 81 cm

1966
Guston expõe no Jewish Museum – desfasamento em relação ao contexto mais “avançado” (Post Painterly Abstraction, Pop, Minimalismo)

Crise pessoal: Guston isola-se (primeiro na Florida e depois em Woodstock).

 

Continua…
 
 

 

 

 

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